segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Sub-estória I

Tenho esta memória vaga de dois bonecos, um par, homem e mulher, feitos com fios de lã entrelaçados de uma determinada forma. Há qualquer coisa neles que me parece errado, toco-lhes e a lã parece-me demasiado confortável. Vem-me à ideia que não seriam feitos originalmente de fios de lã mas sim de palha de centeio e isso isso sim dá-me algum conforto, o que não deixa de ser estranho pois sou alérgico à palha de centeio. Há mais alguma coisa relativamente a estes bonecos que me está a escapar, uma música, uma música com palavras que não sou capaz de recordar.

Mesmo ao lado desta memória guardo outras duas. Uma é o cheiro do doce de maçã que fizemos na primária num pequeno fogão eléctrico que a professora pediu emprestado a alguém. O entusiasmo inicial depressa se transformou em desinteresse e aborrecimento quando nos vimos obrigados a consumir esse mesmo doce de maçã no pão que nos serviam no intervalo da tarde para lanche vez e vez sem conta até que este acabasse e pudéssemos de novo voltar para o desenxabido mas preferível pão com fiambre. Lembro-me ainda de outro aroma bem mais agradável, o do leite com chocolate aquecido numa panela gigantesca pelas contínuas da escola. Ocorreu-me que podiam cozer um rapazinho da primeira classe em leite com chocolate nessa panela gigantesca.

A segunda memória é a de vaguear nos campos enquanto a minha avó cortava erva para os coelhos com uma foice. Aproveitando uma distracção momentânea certamente provocada pela conversa que mantinha com a vizinha do lado ocupada com o mesmo afazer aproveitei para me escapulir por um carreiro fora em buscar de outras paragens. Segui despreocupado até começar a ter medo de não ser capaz de encontrar o caminho de volta por não conseguir já ver a casa dos meus avós. Decidi então voltar para trás quando algo chamou a minha atenção. No fundo do carreiro havia uma mina que desembocava num pequeno lago que certamente alimentava canais de rega para os campos. As rãs coaxavam e eu era tomado por completo por uma vontade de me aventurar pela mina dentro. As mães contavam histórias de meninos que se tinham "enfiado por uma mina dentro e nunca mais tinham voltado". A voz da minha avó a chamar o meu nome quebrou o feitiço da mina. Levantei-me do chão e limpei as joelheiras de napa das minhas calças que estavam cheias de marcas verdes da erva onde tinha estado ajoelhado. Era melhor não, pelo menos não sem uma lanterna, ficava para outro dia e depois ia ser difícil explicar porque é que tinha as calças molhadas até aos joelhos. Virei costas ao chamamento da mina e corri para a segurança da voz que me chamava. Ficava para outro dia. Esse outro dia nunca veio.

Nesse mundo diferente feito de camisas de flanela, calças de bombazine com joelheiras de napa, panelas gigantescas de leite com chocolate e doce de maçã no pão haviam minas por onde se perdiam rapazinhos e ninguém achava isso estranho, tão pouco achavam necessário proteger a entrada dessas minas com grades como se fosse apenas natural que a mãe terra de vez em quando aceitasse um ou outro rapazinho como tributo devido.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Estou a começar a ficar aborrecido com esta conversa toda e é melhor rematar dizendo que não são os deprimidos que me aborrecem mais, até porque as pessoas realmente deprimidas aparentam uma calma relativa vista do lado de fora e não incomodam muito. Os que me aborrecem cabalmente são os que no esforço de se convencerem a si próprios que estão felizes exacerbam esse sentimento ao ponto da caricatura transformando-o num carnaval de si próprio a que se agarram com todas as forças como se fosse fugidio e fugaz e que ao deixa-los os faria cair num infinito poço de destruição e miséria. É a malta dos unicórnios que me chateia, e das fadas, e das borboletas que voam entre bolas de sabão. Cheiram-me sempre a deprimidos de armário a tentarem enganar-se a si próprios. Ocorre-me que estejam a tentar o meu truque do "não me chateia" mas ao contrário. Não me parece que funcione no sentido inverso. Pelo menos metade deles acaba por cair no poço que tão desesperadamente tentam evitar com a sua felicidade conjurada. É capaz de ter a ver com isso, eu não tenho medo de ficar irritado se o não me chateia não funcionar, resolve-se facilmente com um passeio de carro, no caso deles as consequências serão bem mais sérias.

Entretanto com toda esta história de unicórnios e borboletas fui parar a um lugar onde não queria. O meu propósito original de analisar os vários pontos dos quais supostamente a resiliência é constituída foi ao ar, ardeu. Não sei se é por causa de passar a vida na internet mas isto tem-me vindo a ocorrer cada vez mais. Não consigo estar pousado numa paisagem mental durante muito tempo e ando a saltar de sítio para sítio como se sofresse de um qualquer distúrbio de atenção.

De qualquer forma o assunto em sim é parvo, eu nunca me viria como sendo um tipo resiliente. Afinal de contas, estamos a falar da mesma pessoa que quando vai tirar sangue fica com visão em túnel e cai para o lado no momento em que acabam de tirar a agulha do braço e que serve de diversão para as senhoras de meia idade que inevitavelmente trabalham nas clínicas de análises.

Tento descobrir se me apetece comer alguma coisa e deixo o email para mais tarde. Tenho outra nuvem negra na minha cabeça que me esforço por ignorar.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Acho que não tenho grandes problemas com a administração de emoções, com essa posso eu bem. Nunca tive grande tendência para ser uma pessoa demasiado emotiva e tomo cuidado para não deixar com que as minhas emoções me toldem a vista por assim dizer. Há apenas uma rara excepção que confirma a regra que ocorre quando conduzo. Quando conduzo sinto-me protegido encafuado dentro do meu fato de metal com 4 rodas e um airbag à minha frente no volante e sinto-me seguro o suficiente para me dar ao luxo de largar todas as sensações de frustração e de raiva que a estupidez de outros condutores produz em mim. Praguejo como um marinheiro e solto pragas e maldições terríveis. Dou-me a esse luxo pois ninguém vai perceber do lado de fora do que eu estou a fazer e porque sei que as pragas e maldições não passam de superstições sem dentes. Bastou-me um episódio no entanto para me aperceber que fazer o mesmo fora do carro nos põe em perigo físico e apesar de não ser covarde também não sou estúpido e sei que com o meu físico não me posso dar o luxo dessas brincadeiras.

Tenho por norma evitar demonstrações de emoção ao lidar com outras pessoas e mesmo em relação às minhas amizades mais próximas costumo manter entre nós uma almofada de segurança. Também lhe dei nome, é a minha cara do "não me chateia". Treinei bastante para ser capaz de a evocar mesmo em frente a acontecimentos que poriam outra pessoa fora do sério e acabei por me tornar bom a controlar emoções graças a ela. Se consegues fazer com que a emoção não transtorne os músculos da tua cara então ela não é capaz de transtornar o que está dentro do material gelatinoso a que chamam cérebro. Dito e feito, como se um passe de magia homeopática imitativa se tratasse.

Isto tudo por uma boa razão, uma razão egoísta é certo, mas que não deixa de ser válida. Fazem-me confusão as pessoas demasiado emotivas. Tenho dificuldade em manter uma relação estável com elas e é-me praticamente impossível criar laços duradouros. Cansam-me e não consigo perceber muito bem como é que não se cansam a elas próprias. Talvez estejam de tal forma cansadas com elas próprias que o seu único divertimento é cansar as que as rodeiam e ainda tem pachorra para as aturar. Isto não quer dizer no entanto que desista assim do pé para a mão de manter uma amizade com uma pessoa que seja emotivamente exaltada ou que a rejeite de todo; dou-me é a mim próprio a benesse de criar um resguardo que me permita proteger-me dos misseis emocionais tácticos que possam disparar à minha volta. 

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

É possível que seja do toque plástico e do aspecto bolboso do seu "vidro". Não há possibilidade nenhuma do seu corpo negro vir a desenvolver uma patina por estar em contacto com o meu corpo e o meu suor. Não vai mudar comigo, nem vai envelhecer ao meu lado, vai manter-se, para além do ocasional risco, igual a si próprio de uma forma perfeitamente egoísta. Faz-me lembrar um relógio de cozinha, não é possível ter apego por um relógio de cozinha é objecto meramente utilitário. Passei a ter um relógio de cozinha no meu pulso.

Isto tudo para dizer que para um relógio de pulso de ponteiros serem 3 da tarde ou 3 da manhã é igual ao litro. Ao olhar para o meu relógio de pulso penso na sua incapacidade de distinguir o dia da noite e que apesar de ter os meus ciclos de sono completamente desregulados que eu ainda o sou capaz de fazer.

Às 3 da tarde estou à frente do computador com uma chávena de capuccino na mão a tentar acordar, a ler um email do qual não consigo descortinar grande coisa de um amigo que já não ponho a vista em cima há umas semanas. Confere. Se fossem 3 da manhã agora, neste preciso momento... imagino que estaria a tentar perceber o que leva a um casal de idosos a enfrentar o frio para depositar os seus restos de comida no passeio de uma das ruas que ladeia o Jardim da Sereia para alimentar uma população de gatos que lá vive.
Por alguma razão preferia estar a tentar perceber isso do que o email que tinha recebido. Enfim, nada a fazer, a claridade que invadia o meu escritório sem permissão não me dava esse luxo. Não era possível fazer de conta que não eram 3 da tarde.

Olho para lá para fora, para as nuvens que encobrem o céu. Olho de volta para o meu computador e mesmo por baixo do email do Pedro o plugin do AccuWeather indica igualmente nuvens cinzentas com probabilidades de chuva. O mundo digital parece estar de acordo com o analógico. Ambos franzem o sobrolho na antecipação de um possível contratempo o que acto contínuo faz com que eu faça o mesmo.
Dou uma leitura na diagonal ao email de novo passando rapidamente pelas partes mais melodramáticas que me provocam um bocejar involuntário e pergunto-me a mim mesmo porque é que ele achou que o que escrevia me diria alguma coisa? Encalho na palavra resiliência.

É-me familiar e agrada-me. Uma boa palavra, muito mais refinada do que resistência que ao seu lado sofre da mesma falta de interesse que uma sandwiche de queijo tem ao lado de um cachorro completo com cogumelos, batata palha e uma série de molhos. Primas as duas, mas de significados diferentes, embora o significado da primeira não me estivesse completamente explícito na mente. Decido fazer uma busca rápida pela wikipedia que cita a tese de George Souza Barbosa dizendo que Resiliência é uma amalgama de 7 factores: Administração das Emoções, Controle dos Impulsos, Empatia, Optimismo, Análise Causal, Auto Eficácia e Alcance de Pessoas. Faço uma auto-análise rápida tentando perceber se sou mesmo dono de uma resiliência capaz de suscitar inveja por parte de terceiros e concentro-me em cada um dos factores.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Por causa dele e da sua fraca qualidade vi-me obrigado a canibalizar uma série de outros relógios baratos, que consegui ir caçando por casa, com o intuito de o manter a funcionar. O relógio era animado por uma pilha que não se encontra facilmente à venda e que apenas conseguia encontrar noutros relógios igualmente baratos. Acabei por lhe dar um nome e tudo, a "pilha dos relógios rascos". Felizmente tive durante uma série de tempos um fornecimento constante de relógios rascos aos quais podia roubar a pilha; tenho que mandar um dia destes os meus agradecimentos à indústria farmacêutica pela quantidade de brindes inúteis com que inunda o mundo todos os dias pois alguns destes são relógios rascos aos quais posso roubar a sua fonte energética e parte deles vieram parar a minha casa. Infelizmente esse fluxo de relógios parou e vi-me sem forma de alimentar mais o meu arauto de chronos.

Vi-me assim forçado a adquirir um relógio novo o que me causou grande transtorno. Sou uma criatura de hábitos, a mudança aborrece-me e mudar de relógio de pulso é para mim uma mudança realmente grande na minha vida. Estou a ficar mais velho e os velhos tem destas coisas, não se apegam a coisas mas apegam-se a hábitos e já de mim tenho pouca simpatia pelo acto de comprar coisas a não ser que me satisfaçam imediatamente todos os sentidos. Ainda pior que ser forçado a comprar um relógio novo tive que o fazer numa péssima altura, na altura do natal em que os stocks de relógios costumam sofrer largos rombos, as pessoas andam num frenesim de compras de pincarelhos completamente inúteis que de alguma forma deviam ser capazes de transmitir o nosso afecto aos outros e o tempo é sempre escasso. Dei por mim então frente a frente com um expositor de relógios numa superfície comercial de itens de desporto, já tendo este sofrido largas baixas infligidas pelo exercito de transeuntes com carteiras comichosas. A escolha era deveras parca.

É algo que sempre me irritou a quantidade de cores vibrantes com que costumam decorar os itens de desporto e então quando isso é aplicado a relógios o resultado pode ser realmente horroroso; foi na tentativa de evitar esse mesmo desagrado visual que me vi forçado a levar para casa o único relógio do mostrador que não tinha cores absolutamente nenhumas. Bem, minto, eu tento-me convencer que ele não tem cores nenhumas mas não consigo. O ponteiro dos segundos é verde fluorescente. É certo que é bastante fino e que mal dá para notar mas é daquelas coisas que está lá e que me mói. Seja como for, do mal o menos, era o relógio menos colorido e que menos me chateava no expositor, o que não quer dizer que goste dele. Pelo menos não desenvolvi ainda por ele apego. 

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Mau, isto não me soava nada bem. Tentei fazer sentido das palavras que acabava de ler enquanto colocava a chávena de capuccino na banca da cozinha e me lembrava de a passar por água. O raio da mistura que passei a comprar tem o péssimo hábito de secar rapidamente depois acabares de beber e é muito difícil conseguir que a máquina de lavar seja capaz de retirar todas as réstias do pó que não se dissolveu como devia ser na água da chávena. O resultado costuma ser o de ter que lavar à mão a chávena antes de fazer o capuccino o que me costuma arruinar o dia. Fico logo de mau humor e ainda por cima sei que a culpa é minha por ser demasiado desmazelado.

Que raio de email este.

São 3 da tarde diz-me o relógio de pulso. Por sinal tenho andado algo aborrecido com esta história do relógio.

Durante uma série de tempo usei o mesmo relógio de pulso, pode-se dizer até que lhe ganhei algum apego, coisa que nem é muito comum pois tenho a tendência para não me deixar apegar à maioria dos objectos que me rodeiam. São só coisas e nem sequer são minhas. Um dia quando morrer não vou poder levar nenhum deles comigo nem me fariam qualquer tipo de utilidade, logo não há grande razão para desenvolver uma relação com elas; com o relógio no entanto a coisa foi diferente.

Diga-se de passagem que é um relógio barato, aliás do mais barato que há. Tenho quase a certeza que não dei mais do que 5 euros por ele numa qualquer superfície comercial. Foi um daqueles momentos da minha vaidade idiossincrática. Fez-me lembrar tempos em que os relógios com mostradores digitais não existiam e como os relógios de pulso foram um dos grandes desenvolvimentos da primeira guerra mundial. Até para matar dá jeito saber as horas. Enfim, isto num espaço de segundos entre o ver o relógio no expositor e o andar da fila para pagar. Acabei por meter o relógio no meu conjunto de coisas e assim veio a estar na minha posse sem grandes complicações ou histórias digas de nota.

Usei-o sem interrupção durante anos, ao ponto de o seu metal outrora luzidio e capaz de enganar o olhar mais desapercebido do real valor da bugiganga se ter tornado acobreado e ter ganho uma patina que aos meus olhos ainda o tornava mais atraente. Aquela patina tinha sido ganha em contacto com a minha pele e o meu suor. O relógio ganhou em personalidade aos meus olhos e apesar de não pensar sequer nisso de uma forma consciente o facto é que estava de tal forma a ele apegado que era a primeira coisa que colocava no meu corpo logo após sair do duche, isto porque não era à prova de água senão provavelmente tomaria banho comigo todos os dias.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

O Email parte II:

Sãos os limites que temos que conquistar que fazem com que aquilo que criamos tenha algum valor. Valor? Valor para quem? E quem é que tem autoridade para determinar o valor do que outra pessoa faz? Que valor tem uma obra de arte que apenas meia dúzia de pessoas se diz ser capaz de compreender? E quem é que é capaz realmente de compreender o que ia na cabeça da pessoa que criou alguma coisa? Há vários graus de separação entre cada um dos actos e cada um deles é intransponível.

O criar é intransmissível, pessoal, único e egoísta, fechado em si mesmo. O criado pode ser o resultado do criar mas não é uma imagem fiel do criador. No máximo poderá ser um esboço rápido de um estado de espírito fugidio e um interesse passageiro que tomou conta do seu ânimo. A percepção por terceiros do criado é um novo processo de criação distinto do primeiro e que apenas toma o segundo como ponto de partida. O de chegada esse será tão distinto do acto original como o chouriço de uma maçã.

Aborrece-me não ser capaz de dar ordem a tudo isto. Escapa-me a capacidade de controlar de forma cabal todas as circunstancias do meu mundo para lhe dar forma e sentido. Acabo sempre com esta imagem disforme como se modelada pelas mãos já debilitadas de alguém que nasceu velho e cansado.

Meu caro amigo, pretendo por todas estas razões ausentar-me longamente. Sinto a necessidade de encontrar aquilo que não tenho a certeza de ter perdido pois que não tenho sequer a certeza de alguma vez ter tido. Por alguma razão achei que as minhas palavras poderiam ter algum significado para ti embora não te prenda a nada do que aqui te disse em confidência. Deixarás de ter notícias minhas por um período alargado de tempo enquanto me procuro. Ambiciono para mim próprio a resiliência e a determinação pétrea que mostras tantas vezes ter e que invejo solenemente.

Um abraço do teu amigo Pedro.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O Email:

O estado de espírito necessário para escrever alguma coisa que possa ser lida por terceiros é completamente diferente daquele que se pode ter quando estamos a escrever para nós próprios. São poucos os escritores que são capazes de escrever como se dispensassem uma audiência e com completo desprezo não pelos seus leitores em si, mas sim pela sua existência.

Habituados que estão a vaguear nas suas próprias cabeças tem tendência para gradualmente se afastarem do mundo onde vivem e se refugiarem naquele que vão criando, que por conseguinte vai divergindo cada vez mais do real quotidiano. Um equilíbrio difícil de manter enquanto ser humano. Nem todos temos as condições para nos escapulirmos das mãos ossudas e rugosas da rotina diária.
Percebo que pareça um mundo relativamente atraente para quem dele não faz parte mas para mim ele não passa de mais uma disfarçada forma de solidão. Uma clausura aceite pelo próprio que assim se comporta como o seu próprio cárcere e prisioneiro ao mesmo tempo. Uma besta de duas cabeças que se detestam mas que dependem uma da outra.

A capacidade de pensar fora dos trâmites comuns é facilitada pelo levar de uma vida que também ela teima em fugir do ordinário. Temos todos a mania que somos diferentes e que nos encontramos no mundo sozinhos rodeados de uma massa de seres humanos indistintos, animais e sem vontade. Distorção óptica de um ponto de vista demasiado habituado a não olhar para além da distância do umbigo. Se tivesse coragem de o fazer conseguiria distinguir nessa mesma massa o mesmo esgar de desconfiança e incredulidade na humanidade do míope que teima em não levantar os olhos para além do raio de acção dos seus sapatos.
Damo-nos ao luxo de deambular sem sentido no imaginário de horas livres, feito de aborrecimento e falta de sentido e temos a mania de lhe chamar arte e nos comportar-mos como se isso fizesse de nós importantes. Ai do bobo que se leva a si próprio demasiado a sério. Por alguma razão lhes era apenas permitido usarem espadas de pau à cintura.

Uma geração de egoístas, demasiado preocupados com as suas próprias angústias para dar conta que aquilo que escrevem não é mais do que a sua própria incapacidade de deixar a realidade entrar pela janela às 8 da manhã. A poesia é uma boa desculpa para não produzir nada de palpável ou útil deveras à sociedade. Pesa na minha consciência essa leveza desmesurada de nada de concreto sair destas mãos.
Sinto falta do barro, ou do escopro do escultor que no final do dia pode olhar para aquilo que fez e tactear com as pontas dos dedos as imperfeições que precisa de trabalhar com mais afoito. Falta-me ser capaz de sentir a imperfeição no meu trabalho que se apresenta demasiado vago e num mar de indefinições onde tudo é permitido e que por não ter limites palpáveis se torna indiferente e revela ter parco interesse.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

É como se tudo tivesse lugar nuns instantes apenas e logo de seguida se entra no processo inverso de tomada de consciência. Lenta e deliberada que me leva até ao primeiro movimento e a todos os outros subsequentes até a chávena de capuccino estar nas minhas mãos, quente e emanando um leve aroma a um chocolate que não tenho ainda a certeza ser de todo do meu agrado, habituado ainda que estou a outra marca que não fazia uso de tais recursos extra. É nessa altura do primeiro trago que dou um pequeno salto e me torno algo mais desperto, como se fosse puxasse o gradiente de consciência para a frente deixando uma pequena mazela na até então perfeita gradação de um tom para outro.

The Fragrance of Dark Coffee. Nem por isso, na minha cabeça ouve-se o John Williams a dirigir a London Simphony Orchestra numa rendição carregada de assertividade da marcha imperial do Star Wars. Mais um dia.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Tenho por hábito acordar tarde, é uma das poucas vantagens de ter uma profissão liberal, a qual não vem agora ao caso. Suficiente será dizer que me permite ter o horário que mais me convém, o que leva acto contínuo, a que me deite tarde todas as noites e que acorde consequentemente tarde também. Não é que tenha nada contra as manhãs, pelo contrário, até sou apreciador da luz matutina; gosto especialmente da luz daquelas manhãs claras que se seguem a uma noite chuvosa, apenas não as vejo assim tantas vezes quanto isso. As manhãs isto é. Ao longo do tempo o meu ritmo circadiano foi tornando-se cada vez mais tardio como se a vontade de adiar alguma coisa o movesse. Já fiz a minha paz com o assunto. Dele tiro também alguns benefícios que me são queridos.

Levo muito tempo a vir a mim durante o dia. O meu processo de acordar é lento e nunca automático. Pelo contrário, é um esforço consciente e que precisa de ser trabalhado e massajado diariamente. Passa-se o mesmo diga-se de passagem com o adormecer. É de uma curiosidade quase alienígena para mim a facilidade com que algumas pessoas acordam e adormecem, quase como se apenas fosse necessário ligar e desligar um contacto eléctrico e houvesse uma completa distinção entre os dois estados. Não consigo de todo ter a mesma facilidade binária de funcionamento. Enquanto que para essas pessoas a vida é feita de preto e de branco a minha rege-se por um gradiente constante de cinzentos que nunca chega a tocar os extremos senão por parcos segundos. Acho que será por causa disso que me vejo forçado a voluntariamente escolher dar todos os pequeníssimos passos que a maioria das pessoas toma por automáticos, não lhes dedicando o mínimo fragmento de processamento da sua parte.

Desde o levantar da cama ao enfiar os pés nas pantufas, o levantar-me e descer até à cozinha e preparar a primeira chávena de capuccino, todos estes passos tem que ser equacionados, discutidos, analisados e postos em prática pela minha fragmentada mente burocrática. Enquanto o faço tenho a distinta noção que não me encontro ainda completamente consciente e que há um fio contínuo que me leva aos actos anteriores de me deitar, de conscientemente escolher abrandar o meu ritmo mental e respiratório por forma a conseguir entrar no sono, sonhar, primeiro de uma forma ainda semi-consciente em que tenho algum grau de controlo sobre aquilo que se vai passando na minha cabeça até entrar naquele estado em que sou apenas um espectador daquilo que se vai passando na tela à minha frente. Já sem qualquer controlo físico e sem capacidade de determinar o curso dos acontecimentos há um breve resfolegar na inconsciência. Alegria das alegrias par alguns talvez, para mim apenas aquele curto período de tempo em que não sou capaz de registar nada do que se passa em mim ou em meu redor. Nunca tenho noção desse apagar completo poder durar horas. 

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Nada me acorda como uma chávena de capuccino. Regra geral a primeira coisa que faço num dia é preparar uma, à qual se segue,acto contínuo, o seu consumo. Noutras tempos o ser humano achava que ao acordar devia dar ao seu corpo tempo suficiente para que a alma que o animava regressasse das duas deambulações nocturnas. A primeira chávena de capuccino é o meu talismã chamariz para fazer com que a minha alma regresse ao corpo.

Não é uma coisa à qual dedique grande atenção, é simplesmente um facto da minha vida. Um no meio de tantos outros que quando somados acabam por dar uma imagem ao de leve daquilo que vou fazendo como pessoa que sou. De qualquer forma é a chávena e o líquido que ela contém que despoleta todas as coisas boas e más que se seguirão pelo dia fora.

Não me consigo recordar com certeza de quando comecei a ter esse hábito, já o tenho há tempo suficiente no entanto para que este permeie a minha vida de tal forma que o meu filho já acha que o tema ideal para servir de background musical ao meus dias é o "The Fragrance of Dark Coffee", que por sinal não me agrada nada mas também quem é que nos garante que a nossa própria banda sonora tenha que ser do nosso agrado? Podemos escolher aquilo que conscientemente queremos ouvir mas de certeza que não podemos controlar o que na cabeça das outras pessoas ecoa quando pensam em nós, seja lá como for até tem uma certa piada essa ideia de não termos controlo sobre a música que evocamos nas outras pessoas. Teria ainda mais piada podermos ouvir a cacofonia que seria gerada pelas várias músicas que evocávamos nas cabeças das pessoas ouvidas ao mesmo tempo assim que entravamos numa sala povoada de amigos nossos, mas disperso.
É dos poucos vícios se é que assim se pode chamar que tenho. O café. Agora que penso nisso o outro seria a música. Até que vão bem os dois juntos.