segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
Fast forward para os dias de hoje, Tommy passa os seus dias em sítios remotos do país a observar pássaros. É o único ornitólogo que conheço e diga-se de passagem que nunca falei de trabalho com ele. Temos sempre uma miríade de assuntos mais interessantes para discutir, nomeadamente livros, cinema, música e hábitos esquisitos que as pessoas desenvolvem sem darem conta. Dou conta que tenho o "Dança, Dança, Dança" e o DVD do "American Psycho" para lhe devolver e que tenho uma incomensurável dívida para com Tommy por me ter apresentado tanto o Murakami como o Bret Easton Ellis, dizer o quê? as coisas boas da vida vão ter com ele e ele partilha com os amigos.
18:30 pego no casaco, no livro e no DVD e desço as escadas em direcção à porta e ao carro. O dia contínua cinzento mas já me parece menos húmido. Enfio a chave na ignição e dou vida ao motor. Os Don Caballero fazem-se ouvir através das colunas sofríveis do animal de quatro rodas. Engreno a marcha atrás, ajeito a direcção, primeira metida, em direcção à estrada, "Palm Trees in the fecking Bahamas". Está tudo bem, vai correr tudo bem, relaxo.
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012
Ao menos isso, o dia dá uma reviravolta agradável e passo a ter um plano definido para as próximas horas. Não há nada pior para um ser humano que a falta de um objectivo na vida. Mesmo que seja um que se possa cumprir a curto prazo. É sempre preferível a estar encalhado a olhar para uma janela a tentar esquecer um email críptico enviado por um amigo.
Sinto que perdi alguma coisa à medida que o dia se foi desenrolando e não tenho bem a certeza do quê. Sei só que o meu modo de funcionamento mudou como se tivesse passado de um plano de consciência para outro menos elaborado mas nem por isso inferior. Como se tivesse vestido de repente um fato de treino mental e adoptasse uma postura de relaxamento de fim de semana apesar de ser terça-feira. Que seja. O dia avizinha-se agora composto com um bom jantar em vista na companhia de um amigo rematada por uma posterior saída nocturna.
Tommy é daquelas pessoas a quem atendo sempre as chamadas. Merece-o pela sua antiguidade no posto de pessoa mais inteligente que conheço e pelo facto de ter adicionado um colorido à minha vida que a tornou mais rica. É raro estarmos juntos por causa do emprego dele.
História curiosa essa diga-se de passagem, a uma dada altura Tommy ia bem lançado para ser um modelo profissional e até quem sabe um actor conhecido. Passava a vida em castings para anúncios a iogurtes light, fazia papeis secundários em telenovelas e estava a ser agenciado por uma daquelas estilistas famosas até ao fatídico dia em que por causa de mais um daqueles esquemas de product placement se viu forçado num set de uma telenovela a consumir quantidades inusitadas de amendoins enquanto que beberricava o sumo de manga 0% de açúcar cuja marca pagava quantidades desconhecidas de dinheiro para aparecer no pequeno ecran ao lado de esbeltas celebridades. Isto porque leading lady se mostrava incapaz de se concentrar no texto e conseguir levar a cena até ao fim, corria o rumor no set que por causa de um cocktail de certas substancias ilícitas e comprimidos receitados pelo médico de família. Fosse como fosse o resultado foi uma tremenda cólica intestinal para Tommy que se viu forçado a fazer uso das instalações sanitárias. Curiosidades do destino, o set onde estavam a filmar era num dos bares da estilista que o agenciava e cuja caneta tinha graciosamente acariciado o papel por forma a dar as linhas rotundas e pouco usuais às retretes do mesmo.
Enquanto esvaziava os intestinos na retrete de designer, por sinal desconfortável como tudo Tommy apercebe-se que a vida de modelo/actor/celebridade não é para ele. Que prefere uma boa retrete normal e confortável e poder beber sumo de manga quando lhe apetece.
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
A vibração do telemóvel é amplificada pelo tampo da porta que uso como secretária e desperta-me do meu torpor. Arranca-me da janela e da humidade da paisagem de volta para um mundo que se anuncia mais palpável e povoado de pequenos ruídos eléctricos fornecidos por motores de corrente contínua a cuja eixo são fixos pesos de forma desequilibrada. Antes de atender vejo quem é que me telefona.
-Ei man como é que vai isso? Já lá vai algum tempo. Disparo o primeiro tiro numa conversa que já sei ser segura e ter um desfecho agradável.
-Menaço, tudo em cima? Ouve lá ò pintas fazes alguma coisa hoje? Tens planos para jantar?
-Para jantar não, tenho planos para depois do jantar mas posso incluir-te neles se quiseres, vou ter com pessoal para tomar um café num lugar ainda por definir, interessa-te?
-É possível, malta fixe?
-Sempre.
-OK, alinho. Tou sozinho cá em Coimbra, a V. tá fora numa daquelas rambóias em que os médicos estão sempre metidos, já sabes como é o filme e tenho aqui um frango a precisar de atenção. Tens alguma ideia do que fazer com ele?
-Opá assim de repente vem-me à cabeça um mix de cozinha italiana e chinesa. Cortamos isso em pedaços pequenos e levamos isso à frigideira com azeite e cebola cortada em fatias bem fininhas, quando estiver aloirado já regamos com natas, cogumelos, rebentos de soja e para finalizar um tomate ao cubinhos para cortar o peso das natas, que te parece?
-Parece-me muito bem, a que horas é que podes tar cá?
Olho para o meu relógio de cozinha de pulso e vejo que já são 6 da tarde. Não há maneira de me habituar a ele.
-Consigo estar aí ás 7. Ouve lá uma coisa Tommy por acaso não tens aí por casa daqueles relógios rascos que a propaganda médica costuma oferecer à V.
-Montanhas deles no arrumo, mas porquê?
-Descobres quando aí chegar, vale?
-Combinado cá estarei à tua espera. Nº129, 2º esquerdo caso te tenhas esquecido.
-Obrigado, sabes que sim, faço questão de esquecer sempre o teu andar e número da tua porta.
-All right see you later.
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
Sub-Estória II
Entre duas valas num campo uma figura vestida toda ela de negro permanece imóvel. Olhos implícitos escondem-se por trás de óculos negros de soldador que repousam em cima de uma máscara de gás também ela negra. Uma balaclava, um chapéu e um cachecol impedem-nos de reconhecer nela qualquer indício de humanidade.
Por debaixo da capa é possível ver o sobretudo e o colete no qual uma corrente nos leva a deduzir um relógio de bolso. Gravata e calças também negras, botins para rematar.
Na mão direita carrega uma mala, na esquerda uma pá.
Como se cansado da sua própria imobilidade quebra o murmúrio da brisa com o restolhar dos seu passos em direcção ao arvoredo. Avança num passo cansado de quem sabe para onde deve ir, de quem tem a certeza do seu propósito.
Á sua passagem a ramaria que inicialmente protesta resigna-se e geme de compaixão ao aperceber-se do peso que carrega. É recebido pela humidade que os espíritos da verdura lhe oferecem ao jeito de lágrimas de pesar.
Para de novo. Como se certificasse de que ninguém teria a impertinência de o incomodar na tarefa que se segue olha para trás. O bosque baixa os olhos em resposta, resignado.
Cava. Pausadamente, com método, com ritmo. Primeiro o raspar metálico da pá a ferir o solo, depois o enérgico movimento de braços que arranca a terra do seu berço e a lança para um nado monte, a pausa do voo antes do aterrar.
Uma cova de aspecto insuficiente, uma ferida na mãe terra é aberta pelo manejar confiante e certo da pá. O trabalho está quase feito, a pá é largada ao abandono temporário.
Debruça-se sobre a mala e abre-a. Suspira e pela primeira vez parece menos certo nos seus intentos. Segue em frente; da mala retira inanimado e envolto num sudário uma forma de gente que cuidadosamente coloca na que agora nos apercebemos ser sepultura.
Com carinho de pai e com as próprias mãos escondidas por trás de luvas de couro grossas permite ao solo recém perturbado regressar ao seu ponto de origem, cobrindo por completo a forma de gente embrulhada na sua mortalha que a aceita sem reclamar.
A humidade desce sobre a cama de húmus da terra fértil do bosque.
O tributo é aceite com a tristeza de quem leva sem tomar nisso qualquer prazer.
O que é vivo deixa de o ser para poder voltar a ser de novo.
A única coisa certa é a mudança.
Subscrever:
Mensagens (Atom)