Sãos os limites que temos que conquistar que fazem com que aquilo que criamos tenha algum valor. Valor? Valor para quem? E quem é que tem autoridade para determinar o valor do que outra pessoa faz? Que valor tem uma obra de arte que apenas meia dúzia de pessoas se diz ser capaz de compreender? E quem é que é capaz realmente de compreender o que ia na cabeça da pessoa que criou alguma coisa? Há vários graus de separação entre cada um dos actos e cada um deles é intransponível.
O criar é intransmissível, pessoal, único e egoísta, fechado em si mesmo. O criado pode ser o resultado do criar mas não é uma imagem fiel do criador. No máximo poderá ser um esboço rápido de um estado de espírito fugidio e um interesse passageiro que tomou conta do seu ânimo. A percepção por terceiros do criado é um novo processo de criação distinto do primeiro e que apenas toma o segundo como ponto de partida. O de chegada esse será tão distinto do acto original como o chouriço de uma maçã.
Aborrece-me não ser capaz de dar ordem a tudo isto. Escapa-me a capacidade de controlar de forma cabal todas as circunstancias do meu mundo para lhe dar forma e sentido. Acabo sempre com esta imagem disforme como se modelada pelas mãos já debilitadas de alguém que nasceu velho e cansado.
Meu caro amigo, pretendo por todas estas razões ausentar-me longamente. Sinto a necessidade de encontrar aquilo que não tenho a certeza de ter perdido pois que não tenho sequer a certeza de alguma vez ter tido. Por alguma razão achei que as minhas palavras poderiam ter algum significado para ti embora não te prenda a nada do que aqui te disse em confidência. Deixarás de ter notícias minhas por um período alargado de tempo enquanto me procuro. Ambiciono para mim próprio a resiliência e a determinação pétrea que mostras tantas vezes ter e que invejo solenemente.
Um abraço do teu amigo Pedro.