segunda-feira, 31 de outubro de 2011

O Email parte II:

Sãos os limites que temos que conquistar que fazem com que aquilo que criamos tenha algum valor. Valor? Valor para quem? E quem é que tem autoridade para determinar o valor do que outra pessoa faz? Que valor tem uma obra de arte que apenas meia dúzia de pessoas se diz ser capaz de compreender? E quem é que é capaz realmente de compreender o que ia na cabeça da pessoa que criou alguma coisa? Há vários graus de separação entre cada um dos actos e cada um deles é intransponível.

O criar é intransmissível, pessoal, único e egoísta, fechado em si mesmo. O criado pode ser o resultado do criar mas não é uma imagem fiel do criador. No máximo poderá ser um esboço rápido de um estado de espírito fugidio e um interesse passageiro que tomou conta do seu ânimo. A percepção por terceiros do criado é um novo processo de criação distinto do primeiro e que apenas toma o segundo como ponto de partida. O de chegada esse será tão distinto do acto original como o chouriço de uma maçã.

Aborrece-me não ser capaz de dar ordem a tudo isto. Escapa-me a capacidade de controlar de forma cabal todas as circunstancias do meu mundo para lhe dar forma e sentido. Acabo sempre com esta imagem disforme como se modelada pelas mãos já debilitadas de alguém que nasceu velho e cansado.

Meu caro amigo, pretendo por todas estas razões ausentar-me longamente. Sinto a necessidade de encontrar aquilo que não tenho a certeza de ter perdido pois que não tenho sequer a certeza de alguma vez ter tido. Por alguma razão achei que as minhas palavras poderiam ter algum significado para ti embora não te prenda a nada do que aqui te disse em confidência. Deixarás de ter notícias minhas por um período alargado de tempo enquanto me procuro. Ambiciono para mim próprio a resiliência e a determinação pétrea que mostras tantas vezes ter e que invejo solenemente.

Um abraço do teu amigo Pedro.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O Email:

O estado de espírito necessário para escrever alguma coisa que possa ser lida por terceiros é completamente diferente daquele que se pode ter quando estamos a escrever para nós próprios. São poucos os escritores que são capazes de escrever como se dispensassem uma audiência e com completo desprezo não pelos seus leitores em si, mas sim pela sua existência.

Habituados que estão a vaguear nas suas próprias cabeças tem tendência para gradualmente se afastarem do mundo onde vivem e se refugiarem naquele que vão criando, que por conseguinte vai divergindo cada vez mais do real quotidiano. Um equilíbrio difícil de manter enquanto ser humano. Nem todos temos as condições para nos escapulirmos das mãos ossudas e rugosas da rotina diária.
Percebo que pareça um mundo relativamente atraente para quem dele não faz parte mas para mim ele não passa de mais uma disfarçada forma de solidão. Uma clausura aceite pelo próprio que assim se comporta como o seu próprio cárcere e prisioneiro ao mesmo tempo. Uma besta de duas cabeças que se detestam mas que dependem uma da outra.

A capacidade de pensar fora dos trâmites comuns é facilitada pelo levar de uma vida que também ela teima em fugir do ordinário. Temos todos a mania que somos diferentes e que nos encontramos no mundo sozinhos rodeados de uma massa de seres humanos indistintos, animais e sem vontade. Distorção óptica de um ponto de vista demasiado habituado a não olhar para além da distância do umbigo. Se tivesse coragem de o fazer conseguiria distinguir nessa mesma massa o mesmo esgar de desconfiança e incredulidade na humanidade do míope que teima em não levantar os olhos para além do raio de acção dos seus sapatos.
Damo-nos ao luxo de deambular sem sentido no imaginário de horas livres, feito de aborrecimento e falta de sentido e temos a mania de lhe chamar arte e nos comportar-mos como se isso fizesse de nós importantes. Ai do bobo que se leva a si próprio demasiado a sério. Por alguma razão lhes era apenas permitido usarem espadas de pau à cintura.

Uma geração de egoístas, demasiado preocupados com as suas próprias angústias para dar conta que aquilo que escrevem não é mais do que a sua própria incapacidade de deixar a realidade entrar pela janela às 8 da manhã. A poesia é uma boa desculpa para não produzir nada de palpável ou útil deveras à sociedade. Pesa na minha consciência essa leveza desmesurada de nada de concreto sair destas mãos.
Sinto falta do barro, ou do escopro do escultor que no final do dia pode olhar para aquilo que fez e tactear com as pontas dos dedos as imperfeições que precisa de trabalhar com mais afoito. Falta-me ser capaz de sentir a imperfeição no meu trabalho que se apresenta demasiado vago e num mar de indefinições onde tudo é permitido e que por não ter limites palpáveis se torna indiferente e revela ter parco interesse.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

É como se tudo tivesse lugar nuns instantes apenas e logo de seguida se entra no processo inverso de tomada de consciência. Lenta e deliberada que me leva até ao primeiro movimento e a todos os outros subsequentes até a chávena de capuccino estar nas minhas mãos, quente e emanando um leve aroma a um chocolate que não tenho ainda a certeza ser de todo do meu agrado, habituado ainda que estou a outra marca que não fazia uso de tais recursos extra. É nessa altura do primeiro trago que dou um pequeno salto e me torno algo mais desperto, como se fosse puxasse o gradiente de consciência para a frente deixando uma pequena mazela na até então perfeita gradação de um tom para outro.

The Fragrance of Dark Coffee. Nem por isso, na minha cabeça ouve-se o John Williams a dirigir a London Simphony Orchestra numa rendição carregada de assertividade da marcha imperial do Star Wars. Mais um dia.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Tenho por hábito acordar tarde, é uma das poucas vantagens de ter uma profissão liberal, a qual não vem agora ao caso. Suficiente será dizer que me permite ter o horário que mais me convém, o que leva acto contínuo, a que me deite tarde todas as noites e que acorde consequentemente tarde também. Não é que tenha nada contra as manhãs, pelo contrário, até sou apreciador da luz matutina; gosto especialmente da luz daquelas manhãs claras que se seguem a uma noite chuvosa, apenas não as vejo assim tantas vezes quanto isso. As manhãs isto é. Ao longo do tempo o meu ritmo circadiano foi tornando-se cada vez mais tardio como se a vontade de adiar alguma coisa o movesse. Já fiz a minha paz com o assunto. Dele tiro também alguns benefícios que me são queridos.

Levo muito tempo a vir a mim durante o dia. O meu processo de acordar é lento e nunca automático. Pelo contrário, é um esforço consciente e que precisa de ser trabalhado e massajado diariamente. Passa-se o mesmo diga-se de passagem com o adormecer. É de uma curiosidade quase alienígena para mim a facilidade com que algumas pessoas acordam e adormecem, quase como se apenas fosse necessário ligar e desligar um contacto eléctrico e houvesse uma completa distinção entre os dois estados. Não consigo de todo ter a mesma facilidade binária de funcionamento. Enquanto que para essas pessoas a vida é feita de preto e de branco a minha rege-se por um gradiente constante de cinzentos que nunca chega a tocar os extremos senão por parcos segundos. Acho que será por causa disso que me vejo forçado a voluntariamente escolher dar todos os pequeníssimos passos que a maioria das pessoas toma por automáticos, não lhes dedicando o mínimo fragmento de processamento da sua parte.

Desde o levantar da cama ao enfiar os pés nas pantufas, o levantar-me e descer até à cozinha e preparar a primeira chávena de capuccino, todos estes passos tem que ser equacionados, discutidos, analisados e postos em prática pela minha fragmentada mente burocrática. Enquanto o faço tenho a distinta noção que não me encontro ainda completamente consciente e que há um fio contínuo que me leva aos actos anteriores de me deitar, de conscientemente escolher abrandar o meu ritmo mental e respiratório por forma a conseguir entrar no sono, sonhar, primeiro de uma forma ainda semi-consciente em que tenho algum grau de controlo sobre aquilo que se vai passando na minha cabeça até entrar naquele estado em que sou apenas um espectador daquilo que se vai passando na tela à minha frente. Já sem qualquer controlo físico e sem capacidade de determinar o curso dos acontecimentos há um breve resfolegar na inconsciência. Alegria das alegrias par alguns talvez, para mim apenas aquele curto período de tempo em que não sou capaz de registar nada do que se passa em mim ou em meu redor. Nunca tenho noção desse apagar completo poder durar horas. 

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Nada me acorda como uma chávena de capuccino. Regra geral a primeira coisa que faço num dia é preparar uma, à qual se segue,acto contínuo, o seu consumo. Noutras tempos o ser humano achava que ao acordar devia dar ao seu corpo tempo suficiente para que a alma que o animava regressasse das duas deambulações nocturnas. A primeira chávena de capuccino é o meu talismã chamariz para fazer com que a minha alma regresse ao corpo.

Não é uma coisa à qual dedique grande atenção, é simplesmente um facto da minha vida. Um no meio de tantos outros que quando somados acabam por dar uma imagem ao de leve daquilo que vou fazendo como pessoa que sou. De qualquer forma é a chávena e o líquido que ela contém que despoleta todas as coisas boas e más que se seguirão pelo dia fora.

Não me consigo recordar com certeza de quando comecei a ter esse hábito, já o tenho há tempo suficiente no entanto para que este permeie a minha vida de tal forma que o meu filho já acha que o tema ideal para servir de background musical ao meus dias é o "The Fragrance of Dark Coffee", que por sinal não me agrada nada mas também quem é que nos garante que a nossa própria banda sonora tenha que ser do nosso agrado? Podemos escolher aquilo que conscientemente queremos ouvir mas de certeza que não podemos controlar o que na cabeça das outras pessoas ecoa quando pensam em nós, seja lá como for até tem uma certa piada essa ideia de não termos controlo sobre a música que evocamos nas outras pessoas. Teria ainda mais piada podermos ouvir a cacofonia que seria gerada pelas várias músicas que evocávamos nas cabeças das pessoas ouvidas ao mesmo tempo assim que entravamos numa sala povoada de amigos nossos, mas disperso.
É dos poucos vícios se é que assim se pode chamar que tenho. O café. Agora que penso nisso o outro seria a música. Até que vão bem os dois juntos.