segunda-feira, 19 de março de 2012


Dou uma vista de olhos pelo apartamento enquanto vamos conversando. Pouco ou nada mudou desde a última vez que cá estive exceptuando uma nova estatueta africana que reside no corredor de acesso e que adiciona a uma decoração já de si ecléctica e pouco estudada do sítio. Em cima da mesa da sala um portátil e uma pilha de papéis num estado de desarrumação considerável. Em frente um daqueles armários de herança onde as nossas avós costumavam guardar pratos de porcelana e que se encontra parcialmente vazio. Um sofá cinzento cujo tecido evidencia uma longa existência acariciada por uma quantidade considerável de rabos e uma mesa de vidro que parece completamente despropositada naquele ambiente. Por todo o lado souvenirs baratas de viagens, um leque japonês na parede, um birimbau brasileiro, uma roca da Columbia Britânica que me trás à cabeça um documentário sobre a tribo dos castores, nativos norte americanos da região, cuja língua é falada nos dias de hoje por apenas umas trezentas pessoas e cujas entradas das suas cabanas de madeira são esculpidas em madeira e pintadas de cores vivas com motivos totémicos que por alguma razão me parecem muito próprias num universo imaginado pelo David Lynch e que começo a duvidar ter mesmo visto em algum cenário do Twin Peaks.
-Desculpa lá a desarrumação ó pintas.
-Ora essa, nada disso, esta roca é que me levou para outro lado completamente, Colúmbia Britânica certo? Digo isto por causa da Orca.
-Estou impressionado já lá estiveste?
-Nah tu conheces-me. Tirar-me de casa é muito complicado, o meu modo de viajar é diferente do teu. Sou um animal de hábitos, dormir noutra cama que não seja a minha faz-me confusão.

segunda-feira, 12 de março de 2012


-Fucker lembraste-te do andar hein?
Enquanto me preparo para responder reparo na qualidade do plástico do intercomunicador, de um bege que me faz lembrar séries de ficção científica dos anos 70. Tento lembrar-me do tema do genérico da série "Espaço 1999" e falho redondamente ficando-me apenas pela recordação de uma personagem ter as suíças e o aspecto severo que o Presidente Ramalho Eanes tinha.
-Ainda não estou completamente senil meu velho.
-Ora ainda bem, 'peraí que eu abro-te a porta.
O fechadura eléctrica da porta do prédio emite um ruído mais baixo mas de tom semelhante ao de uma cigarra e consigo abrir a porta com sucesso. O aspecto moderno do elevador contrasta com o bege anacrónico do intercomunicador. Distraio-me com o toque dos botões e com o ecrã lcd que me vai indicando em que andar é que estou. A viagem do rés do chão ao segundo andar é curta apesar de o elevador não ser assim tão rápido quanto isso. As portas abrem com "plim" característico que nos parece indicar que chegamos com segurança ao nosso destino. Uma porta aberta que deixa antever um pequeno espelho oval e poupa-me o trabalho de me certificar se não me enganei na minha "esquerda". Tommy tem um sorriso largo estampado bem enquadrado numa cara de proporções harmoniosas senhora de um queixo digno de um actor de cinema e rematada por uns olhos azuis e um cabelo loiro, única nota de discórdia sendo uma pequena assimetria nasal que a maioria das mulheres perdoaria de bom grado. Bronzeado, de camisa havaiana e calções caqui oferece um abraço com a maior naturalidade do mundo.
-Passa para cá esses ossos. Diz com entusiasmo.
-Tás com bom aspecto pá, grande bronzeado hein? e tás tá com um tónus muscular sim senhor, nem um pingo de gordura, a vida trata-te bem.
-Oh sim, horas a torrar debaixo do sol de Marrocos e a diarreia de cortesia oferecida pelo consumo da água local costuma ter esse efeito. Devo ter perdido uns 4 quilos à custa dos nossos amigos Gypaetus barbatus (abutre-barbudo) mas nada de conversas de trabalho. Tu é que pareces mais redondinho.
-É verdade, larguei o vício.
-Outra vez?
-Desta vez é a sério, sem desculpas e sem volta a dar.
-Bem, vou fingir que acredito em ti meu sacana. Ainda bem, mesmo que não seja definitivo pelo menos dás um descanso ao teu corpo.
-É definitivo, já lá vão 9 meses.
-Já não nos vemos assim há tanto tempo?
-Yep, é verdade.

segunda-feira, 5 de março de 2012


Infelizmente estacionamento é coisa que nunca abunda perto do apartamento de Tommy; pode-se mesmo dizer que estacionamento é uma coisa que não abunda em lado nenhum nesta cidade, o que me irrita solenemente. É um bocado como se a cidade fosse um balão que por infelicidade e velhice fosse perdendo ar forçando a todos os que nela habitam a partilhar um espaço cada vez mais apertado e por conseguinte claustrofóbico.

Lá consigo ver um lugar mesmo e estaciono o carro mesmo no final de mais uma música dos Don Caballero. "Impecable timing" digo para mim mesmo com o melhor sotaque inglês que consigo desencantar. Fica a mais de 50 metros da entrada do prédio mas isso não é problema. Uma das desvantagens de deixar de fumar é uma certa tendência para acumular tecido adiposo no abdómen, um preço que não me importo minimamente de pagar tendo em conta que é realmente minúsculo quando comparado com as contrapartidas. Aliás essa história de fumar sempre me incomodou um bocado, há no hábito qualquer coisa que nunca me entrou bem na cabeça. Durante todo o tempo em que estive dependente da nicotina nunca conseguir perceber como é que o acto de fumar se viu associado com uma certa atitude de rebeldia e como a defesa do acto em si tenha sido tomada a peito por uma certa elite pseudo-intelectual de esquerda por sinal muito profusa nesta cidade com demasiados carros e parca em lugares de estacionamento. Quer dizer, não é assim nada que me pareça indicar um maior controlo sobre uma pessoa do que o convencer a pagar pelo privilégio de consumir um item que não faz outra coisa do que piorar as suas possibilidades de levar uma vida longa graças a um marketing inteligente levado a cabo por corporações estrangeiras gigantescas lideradas por (pelo menos é assim que os imagino) executivos gordurosos com acesso aos melhores médicos que o dinheiro pode comprar. O Tabaco é o poster boy do capitalismo, conseguir vender às pessoas um produto que só lhes causa dano. Devo dizer no entanto que me diverte imenso ver juventude dos seus vinte anos com tshirts do che guevara a chuparem nos seus cigarros produzidos sobre licença de uma qualquer empresa tabaqueira americana. A vida dá-nos estas pequenas pérolas de contra-senso que aprecio de sobremaneira.

Dito isto eis que me vejo à porta do prédio. Nº129, 2º esquerdo. Toco na campainha e recebo como resposta a voz de Tommy filtrada pelo conjunto medíocre de microfone e speaker do intercomunicador que lhe dá uma qualidade metálica carregada de frequências médias e uma ligeira distorção.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012


Fast forward para os dias de hoje, Tommy passa os seus dias em sítios remotos do país a observar pássaros. É o único ornitólogo que conheço e diga-se de passagem que nunca falei de trabalho com ele. Temos sempre uma miríade de assuntos mais interessantes para discutir, nomeadamente livros, cinema, música e hábitos esquisitos que as pessoas desenvolvem sem darem conta. Dou conta que tenho o "Dança, Dança, Dança" e o DVD do "American Psycho" para lhe devolver e que tenho uma incomensurável dívida para com Tommy por me ter apresentado tanto o Murakami como o Bret Easton Ellis, dizer o quê? as coisas boas da vida vão ter com ele e ele partilha com os amigos.

18:30 pego no casaco, no livro e no DVD e desço as escadas em direcção à porta e ao carro. O dia contínua cinzento mas já me parece menos húmido. Enfio a chave na ignição e dou vida ao motor. Os Don Caballero fazem-se ouvir através das colunas sofríveis do animal de quatro rodas. Engreno a marcha atrás, ajeito a direcção, primeira metida, em direcção à estrada, "Palm Trees in the fecking Bahamas". Está tudo bem, vai correr tudo bem, relaxo.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012


Ao menos isso, o dia dá uma reviravolta agradável e passo a ter um plano definido para as próximas horas. Não há nada pior para um ser humano que a falta de um objectivo na vida. Mesmo que seja um que se possa cumprir a curto prazo. É sempre preferível a estar encalhado a olhar para uma janela a tentar esquecer um email críptico enviado por um amigo.

Sinto que perdi alguma coisa à medida que o dia se foi desenrolando e não tenho bem a certeza do quê. Sei só que o meu modo de funcionamento mudou como se tivesse passado de um plano de consciência para outro menos elaborado mas nem por isso inferior. Como se tivesse vestido de repente um fato de treino mental e adoptasse uma postura de relaxamento de fim de semana apesar de ser terça-feira. Que seja. O dia avizinha-se agora composto com um bom jantar em vista na companhia de um amigo rematada por uma posterior saída nocturna.

Tommy é daquelas pessoas a quem atendo sempre as chamadas. Merece-o pela sua antiguidade no posto de pessoa mais inteligente que conheço e pelo facto de ter adicionado um colorido à minha vida que a tornou mais rica. É raro estarmos juntos por causa do emprego dele.

História curiosa essa diga-se de passagem, a uma dada altura Tommy ia bem lançado para ser um modelo profissional e até quem sabe um actor conhecido. Passava a vida em castings para anúncios a iogurtes light, fazia papeis secundários em telenovelas e estava a ser agenciado por uma daquelas estilistas famosas até ao fatídico dia em que por causa de mais um daqueles esquemas de product placement se viu forçado num set de uma telenovela a consumir quantidades inusitadas de amendoins enquanto que beberricava o sumo de manga 0% de açúcar cuja marca pagava quantidades desconhecidas de dinheiro para aparecer no pequeno ecran ao lado de esbeltas celebridades. Isto porque leading lady se mostrava incapaz de se concentrar no texto e conseguir levar a cena até ao fim, corria o rumor no set que por causa de um cocktail de certas substancias ilícitas e comprimidos receitados pelo médico de família. Fosse como fosse o resultado foi uma tremenda cólica intestinal para Tommy que se viu forçado a fazer uso das instalações sanitárias. Curiosidades do destino, o set onde estavam a filmar era num dos bares da estilista que o agenciava e cuja caneta tinha graciosamente acariciado o papel por forma a dar as linhas rotundas e pouco usuais às retretes do mesmo.

Enquanto esvaziava os intestinos na retrete de designer, por sinal desconfortável como tudo Tommy apercebe-se que a vida de modelo/actor/celebridade não é para ele. Que prefere uma boa retrete normal e confortável e poder beber sumo de manga quando lhe apetece.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012


A vibração do telemóvel é amplificada pelo tampo da porta que uso como secretária e desperta-me do meu torpor. Arranca-me da janela e da humidade da paisagem de volta para um mundo que se anuncia mais palpável e povoado de pequenos ruídos eléctricos fornecidos por motores de corrente contínua a cuja eixo são fixos pesos de forma desequilibrada. Antes de atender vejo quem é que me telefona.

-Ei man como é que vai isso? Já lá vai algum tempo. Disparo o primeiro tiro numa conversa que já sei ser segura e ter um desfecho agradável.
-Menaço, tudo em cima? Ouve lá ò pintas fazes alguma coisa hoje? Tens planos para jantar?
-Para jantar não, tenho planos para depois do jantar mas posso incluir-te neles se quiseres, vou ter com pessoal para tomar um café num lugar ainda por definir, interessa-te?
-É possível, malta fixe?
-Sempre.
-OK, alinho. Tou sozinho cá em Coimbra, a V. tá fora numa daquelas rambóias em que os médicos estão sempre metidos, já sabes como é o filme e tenho aqui um frango a precisar de atenção. Tens alguma ideia do que fazer com ele?
-Opá assim de repente vem-me à cabeça um mix de cozinha italiana e chinesa. Cortamos isso em pedaços pequenos e levamos isso à frigideira com azeite e cebola cortada em fatias bem fininhas, quando estiver aloirado já regamos com natas, cogumelos, rebentos de soja e para finalizar um tomate ao cubinhos para cortar o peso das natas, que te parece?
-Parece-me muito bem, a que horas é que podes tar cá?
Olho para o meu relógio de cozinha de pulso e vejo que já são 6 da tarde. Não há maneira de me habituar a ele.
-Consigo estar aí ás 7. Ouve lá uma coisa Tommy por acaso não tens aí por casa daqueles relógios rascos que a propaganda médica costuma oferecer à V.
-Montanhas deles no arrumo, mas porquê?
-Descobres quando aí chegar, vale?
-Combinado cá estarei à tua espera. Nº129, 2º esquerdo caso te tenhas esquecido.
-Obrigado, sabes que sim, faço questão de esquecer sempre o teu andar e número da tua porta.
-All right see you later.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012


Sub-Estória II

Entre duas valas num campo uma figura vestida toda ela de negro permanece imóvel. Olhos implícitos escondem-se por trás de óculos negros de soldador que repousam em cima de uma máscara de gás também ela negra. Uma balaclava, um chapéu e um cachecol impedem-nos de reconhecer nela qualquer indício de humanidade.

Por debaixo da capa é possível ver o sobretudo e o colete no qual uma corrente nos leva a deduzir um relógio de bolso. Gravata e calças também negras, botins para rematar.

Na mão direita carrega uma mala, na esquerda uma pá.

Como se cansado da sua própria imobilidade quebra o murmúrio da brisa com o restolhar dos seu passos em direcção ao arvoredo. Avança num passo cansado de quem sabe para onde deve ir, de quem tem a certeza do seu propósito.

Á sua passagem a ramaria que inicialmente protesta resigna-se e geme de compaixão ao aperceber-se do peso que carrega. É recebido pela humidade que os espíritos da verdura lhe oferecem ao jeito de lágrimas de pesar.

Para de novo. Como se certificasse de que ninguém teria a impertinência de o incomodar na tarefa que se segue olha para trás. O bosque baixa os olhos em resposta, resignado.

Cava. Pausadamente, com método, com ritmo. Primeiro o raspar metálico da pá a ferir o solo, depois o enérgico movimento de braços que arranca a terra do seu berço e a lança para um nado monte, a pausa do voo antes do aterrar.

Uma cova de aspecto insuficiente, uma ferida na mãe terra é aberta pelo manejar confiante e certo da pá. O trabalho está quase feito, a pá é largada ao abandono temporário.

Debruça-se sobre a mala e abre-a. Suspira e pela primeira vez parece menos certo nos seus intentos. Segue em frente; da mala retira inanimado e envolto num sudário uma forma de gente que cuidadosamente coloca na que agora nos apercebemos ser sepultura.

Com carinho de pai e com as próprias mãos escondidas por trás de luvas de couro grossas permite ao solo recém perturbado regressar ao seu ponto de origem, cobrindo por completo a forma de gente embrulhada na sua mortalha que a aceita sem reclamar.

A humidade desce sobre a cama de húmus da terra fértil do bosque.
O tributo é aceite com a tristeza de quem leva sem tomar nisso qualquer prazer.

O que é vivo deixa de o ser para poder voltar a ser de novo.

A única coisa certa é a mudança.