segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
Sub-Estória II
Entre duas valas num campo uma figura vestida toda ela de negro permanece imóvel. Olhos implícitos escondem-se por trás de óculos negros de soldador que repousam em cima de uma máscara de gás também ela negra. Uma balaclava, um chapéu e um cachecol impedem-nos de reconhecer nela qualquer indício de humanidade.
Por debaixo da capa é possível ver o sobretudo e o colete no qual uma corrente nos leva a deduzir um relógio de bolso. Gravata e calças também negras, botins para rematar.
Na mão direita carrega uma mala, na esquerda uma pá.
Como se cansado da sua própria imobilidade quebra o murmúrio da brisa com o restolhar dos seu passos em direcção ao arvoredo. Avança num passo cansado de quem sabe para onde deve ir, de quem tem a certeza do seu propósito.
Á sua passagem a ramaria que inicialmente protesta resigna-se e geme de compaixão ao aperceber-se do peso que carrega. É recebido pela humidade que os espíritos da verdura lhe oferecem ao jeito de lágrimas de pesar.
Para de novo. Como se certificasse de que ninguém teria a impertinência de o incomodar na tarefa que se segue olha para trás. O bosque baixa os olhos em resposta, resignado.
Cava. Pausadamente, com método, com ritmo. Primeiro o raspar metálico da pá a ferir o solo, depois o enérgico movimento de braços que arranca a terra do seu berço e a lança para um nado monte, a pausa do voo antes do aterrar.
Uma cova de aspecto insuficiente, uma ferida na mãe terra é aberta pelo manejar confiante e certo da pá. O trabalho está quase feito, a pá é largada ao abandono temporário.
Debruça-se sobre a mala e abre-a. Suspira e pela primeira vez parece menos certo nos seus intentos. Segue em frente; da mala retira inanimado e envolto num sudário uma forma de gente que cuidadosamente coloca na que agora nos apercebemos ser sepultura.
Com carinho de pai e com as próprias mãos escondidas por trás de luvas de couro grossas permite ao solo recém perturbado regressar ao seu ponto de origem, cobrindo por completo a forma de gente embrulhada na sua mortalha que a aceita sem reclamar.
A humidade desce sobre a cama de húmus da terra fértil do bosque.
O tributo é aceite com a tristeza de quem leva sem tomar nisso qualquer prazer.
O que é vivo deixa de o ser para poder voltar a ser de novo.
A única coisa certa é a mudança.
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