segunda-feira, 5 de março de 2012


Infelizmente estacionamento é coisa que nunca abunda perto do apartamento de Tommy; pode-se mesmo dizer que estacionamento é uma coisa que não abunda em lado nenhum nesta cidade, o que me irrita solenemente. É um bocado como se a cidade fosse um balão que por infelicidade e velhice fosse perdendo ar forçando a todos os que nela habitam a partilhar um espaço cada vez mais apertado e por conseguinte claustrofóbico.

Lá consigo ver um lugar mesmo e estaciono o carro mesmo no final de mais uma música dos Don Caballero. "Impecable timing" digo para mim mesmo com o melhor sotaque inglês que consigo desencantar. Fica a mais de 50 metros da entrada do prédio mas isso não é problema. Uma das desvantagens de deixar de fumar é uma certa tendência para acumular tecido adiposo no abdómen, um preço que não me importo minimamente de pagar tendo em conta que é realmente minúsculo quando comparado com as contrapartidas. Aliás essa história de fumar sempre me incomodou um bocado, há no hábito qualquer coisa que nunca me entrou bem na cabeça. Durante todo o tempo em que estive dependente da nicotina nunca conseguir perceber como é que o acto de fumar se viu associado com uma certa atitude de rebeldia e como a defesa do acto em si tenha sido tomada a peito por uma certa elite pseudo-intelectual de esquerda por sinal muito profusa nesta cidade com demasiados carros e parca em lugares de estacionamento. Quer dizer, não é assim nada que me pareça indicar um maior controlo sobre uma pessoa do que o convencer a pagar pelo privilégio de consumir um item que não faz outra coisa do que piorar as suas possibilidades de levar uma vida longa graças a um marketing inteligente levado a cabo por corporações estrangeiras gigantescas lideradas por (pelo menos é assim que os imagino) executivos gordurosos com acesso aos melhores médicos que o dinheiro pode comprar. O Tabaco é o poster boy do capitalismo, conseguir vender às pessoas um produto que só lhes causa dano. Devo dizer no entanto que me diverte imenso ver juventude dos seus vinte anos com tshirts do che guevara a chuparem nos seus cigarros produzidos sobre licença de uma qualquer empresa tabaqueira americana. A vida dá-nos estas pequenas pérolas de contra-senso que aprecio de sobremaneira.

Dito isto eis que me vejo à porta do prédio. Nº129, 2º esquerdo. Toco na campainha e recebo como resposta a voz de Tommy filtrada pelo conjunto medíocre de microfone e speaker do intercomunicador que lhe dá uma qualidade metálica carregada de frequências médias e uma ligeira distorção.

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