segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Sub-estória I

Tenho esta memória vaga de dois bonecos, um par, homem e mulher, feitos com fios de lã entrelaçados de uma determinada forma. Há qualquer coisa neles que me parece errado, toco-lhes e a lã parece-me demasiado confortável. Vem-me à ideia que não seriam feitos originalmente de fios de lã mas sim de palha de centeio e isso isso sim dá-me algum conforto, o que não deixa de ser estranho pois sou alérgico à palha de centeio. Há mais alguma coisa relativamente a estes bonecos que me está a escapar, uma música, uma música com palavras que não sou capaz de recordar.

Mesmo ao lado desta memória guardo outras duas. Uma é o cheiro do doce de maçã que fizemos na primária num pequeno fogão eléctrico que a professora pediu emprestado a alguém. O entusiasmo inicial depressa se transformou em desinteresse e aborrecimento quando nos vimos obrigados a consumir esse mesmo doce de maçã no pão que nos serviam no intervalo da tarde para lanche vez e vez sem conta até que este acabasse e pudéssemos de novo voltar para o desenxabido mas preferível pão com fiambre. Lembro-me ainda de outro aroma bem mais agradável, o do leite com chocolate aquecido numa panela gigantesca pelas contínuas da escola. Ocorreu-me que podiam cozer um rapazinho da primeira classe em leite com chocolate nessa panela gigantesca.

A segunda memória é a de vaguear nos campos enquanto a minha avó cortava erva para os coelhos com uma foice. Aproveitando uma distracção momentânea certamente provocada pela conversa que mantinha com a vizinha do lado ocupada com o mesmo afazer aproveitei para me escapulir por um carreiro fora em buscar de outras paragens. Segui despreocupado até começar a ter medo de não ser capaz de encontrar o caminho de volta por não conseguir já ver a casa dos meus avós. Decidi então voltar para trás quando algo chamou a minha atenção. No fundo do carreiro havia uma mina que desembocava num pequeno lago que certamente alimentava canais de rega para os campos. As rãs coaxavam e eu era tomado por completo por uma vontade de me aventurar pela mina dentro. As mães contavam histórias de meninos que se tinham "enfiado por uma mina dentro e nunca mais tinham voltado". A voz da minha avó a chamar o meu nome quebrou o feitiço da mina. Levantei-me do chão e limpei as joelheiras de napa das minhas calças que estavam cheias de marcas verdes da erva onde tinha estado ajoelhado. Era melhor não, pelo menos não sem uma lanterna, ficava para outro dia e depois ia ser difícil explicar porque é que tinha as calças molhadas até aos joelhos. Virei costas ao chamamento da mina e corri para a segurança da voz que me chamava. Ficava para outro dia. Esse outro dia nunca veio.

Nesse mundo diferente feito de camisas de flanela, calças de bombazine com joelheiras de napa, panelas gigantescas de leite com chocolate e doce de maçã no pão haviam minas por onde se perdiam rapazinhos e ninguém achava isso estranho, tão pouco achavam necessário proteger a entrada dessas minas com grades como se fosse apenas natural que a mãe terra de vez em quando aceitasse um ou outro rapazinho como tributo devido.

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