Vi-me assim forçado a adquirir um relógio novo o que me causou grande transtorno. Sou uma criatura de hábitos, a mudança aborrece-me e mudar de relógio de pulso é para mim uma mudança realmente grande na minha vida. Estou a ficar mais velho e os velhos tem destas coisas, não se apegam a coisas mas apegam-se a hábitos e já de mim tenho pouca simpatia pelo acto de comprar coisas a não ser que me satisfaçam imediatamente todos os sentidos. Ainda pior que ser forçado a comprar um relógio novo tive que o fazer numa péssima altura, na altura do natal em que os stocks de relógios costumam sofrer largos rombos, as pessoas andam num frenesim de compras de pincarelhos completamente inúteis que de alguma forma deviam ser capazes de transmitir o nosso afecto aos outros e o tempo é sempre escasso. Dei por mim então frente a frente com um expositor de relógios numa superfície comercial de itens de desporto, já tendo este sofrido largas baixas infligidas pelo exercito de transeuntes com carteiras comichosas. A escolha era deveras parca.
É algo que sempre me irritou a quantidade de cores vibrantes com que costumam decorar os itens de desporto e então quando isso é aplicado a relógios o resultado pode ser realmente horroroso; foi na tentativa de evitar esse mesmo desagrado visual que me vi forçado a levar para casa o único relógio do mostrador que não tinha cores absolutamente nenhumas. Bem, minto, eu tento-me convencer que ele não tem cores nenhumas mas não consigo. O ponteiro dos segundos é verde fluorescente. É certo que é bastante fino e que mal dá para notar mas é daquelas coisas que está lá e que me mói. Seja como for, do mal o menos, era o relógio menos colorido e que menos me chateava no expositor, o que não quer dizer que goste dele. Pelo menos não desenvolvi ainda por ele apego.
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