Suponho que isso faça de mim uma daquelas pessoas que vê o carro que tem como uma coisa completamente utilitária e no entanto eu desenvolvo ligações afectivas com carros. Carros e relógios, curioso, carro branco com para choques negros, relógio de pulso com mostrador branco com corpo e pulseira negra. A vida um gradiente contínuo entre os dois. Estou nitidamente à pesca, à procura de uma ligação que não está lá. Os seres humanos funcionam melhor quando conseguem meter os eventos do dia a dia em caixinhas. Somos supersticiosos por natureza, sendo que ser supersticioso é uma espécie de ser demasiado cuidadoso. Vemos ligações onde elas não existem e repetimos formulas que não termos a certeza funcionem porque nos dá uma sensação de segurança. A sensação não é falsa, é a segurança que o é. Por outras palavras somos bons a mentir a nós próprios para nos sentirmos menos à deriva e menos esmagados por debaixo do peso que as milhares de coisas que podem que correr mal no dia a dia exercem sobre a nossa cabecinha que teima em não funcionar a um passo moderado. Não há outra ligação entre o meu relógio e o meu carro para além de terem as mesmas cores. A única coisa que isso pode querer dizer é que de um ponto de vista cromatográfico sou pouco expansivo, de poucas aventuras.
Isso faz-me lembrar dos meus planos para pintar o escritório da única cor que me dá algum conforto e no impacto que isso teria na minha vida do dia a dia. Um dia deste ainda faço isso, 128, 0, 0 nas minhas paredes e o contraste do castanho das minhas secretárias. Dia inspirado esse em que de duas portas velhas encontradas num sotão e uns cavaletes comprados por tuta e meia numa loja de bricolage acabaram por se transformar numa escritório completamente funcional que me dá a base para poder fazer o meu trabalho diariamente, que me permite transformar aquilo que vai na minha cabeça em coisas palpáveis que se podem mostrar a outras pessoas.
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